O jejum intermitente pode mitigar o vício em opióides e os efeitos colaterais?

0
3

Uma nova pesquisa da Universidade do Arizona sugere que uma simples mudança na dieta – jejum intermitente (JI) – poderia alterar fundamentalmente a forma como o corpo responde aos medicamentos opioides. Ao observar os efeitos do jejum em modelos animais, os cientistas descobriram evidências de que este regime pode aumentar o alívio da dor e, ao mesmo tempo, reduzir o risco de dependência e de efeitos secundários comuns.

Quebrando o ciclo de recompensa e vício

O cerne do vício em opiáceos está no “circuito de recompensa” do cérebro. Quando os opioides são consumidos, eles desencadeiam uma onda de euforia, ensinando o cérebro a desejar a substância para atingir o mesmo efeito. Este ciclo é o que leva à dependência e ao vício a longo prazo.

Em um estudo recente liderado pelo Dr. John Streicher, os pesquisadores testaram esse mecanismo usando ratos. O estudo comparou dois grupos: um grupo controle com acesso irrestrito aos alimentos e um grupo que seguiu uma janela diária de alimentação de seis horas. Ambos os grupos receberam tratamentos com opióides.

Os resultados foram impressionantes:
Grupo Controle: Apresentou a resposta de “recompensa” esperada, demonstrando a típica associação eufórica com a droga.
Grupo IF: não mostrou nenhuma evidência de recompensa. Esses ratos não experimentaram o efeito eufórico nem aprenderam a associar a droga ao prazer.

Isso sugere que o jejum intermitente pode dissociar os benefícios dos opioides no alívio da dor do “euforia” neurológico que leva ao comportamento viciante.

Melhorando a eficácia e reduzindo os efeitos colaterais

Além do impacto sobre o vício, o estudo descobriu que o jejum intermitente melhorou significativamente a qualidade geral do tratamento com opioides. Para pacientes que controlam a dor crônica, o objetivo geralmente é maximizar o alívio e, ao mesmo tempo, minimizar o impacto fisiológico da medicação.

A pesquisa destacou três melhorias principais no grupo de jejum:

  1. Alívio aprimorado da dor: Os ratos em um regime IF experimentaram um alívio da dor que foi mais significativo e mais duradouro do que o grupo de controle.
  2. Tolerância reduzida: No grupo de controle, a tolerância aumentou em 100%, o que significa que os ratos precisaram de doses mais altas para alcançar o mesmo efeito. Em contraste, o grupo IF viu apenas um aumento de 40%, sugerindo que eles poderiam manter a eficácia sem aumentar rapidamente a dosagem.
  3. Melhor saúde intestinal: Os opioides são notórios por causar problemas gastrointestinais, especificamente prisão de ventre. Os ratos IF tiveram menos obstipação e recuperaram mais rapidamente dos medicamentos, uma descoberta que se alinha com o conhecimento existente sobre o impacto positivo do jejum na saúde intestinal.

Do laboratório à clínica: o caminho a seguir

Embora estas descobertas sejam atualmente baseadas em modelos animais, elas representam uma fronteira promissora para a medicina humana. Ao contrário do desenvolvimento de um novo medicamento farmacêutico – que pode levar uma década e custar milhões nos processos de aprovação da FDA – as intervenções dietéticas podem ser implementadas e testadas muito mais rapidamente.

A equipe de pesquisa já está trabalhando para fazer a transição dessas descobertas para ensaios clínicos em humanos. O objetivo é determinar se um protocolo de jejum estruturado pode ser integrado com segurança à terapia da dor com opioides para ajudar os pacientes a controlar a dor sem cair na armadilha da dependência.

“Todos esses resultados juntos sugerem que os efeitos colaterais são reduzidos e a eficácia é melhorada, o que é exatamente o que você deseja”, diz o Dr. Streicher.


Conclusão
Ao neutralizar potencialmente a resposta de recompensa do cérebro aos opioides, o jejum intermitente oferece uma estratégia nova e de baixo custo para melhorar o controle da dor e combater a crescente crise da dependência de drogas. Futuros ensaios clínicos em humanos serão essenciais para confirmar se estas alterações biológicas podem ser replicadas com segurança nos pacientes.